Alienação parental
- Margarida Viñas
- Aug 3, 2025
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A alienação parental é uma das formas mais dolorosas de conflito familiar. Ela acontece, em geral, após separações ou divórcios marcados por ressentimento, quando um dos genitores — muitas vezes sem se dar conta da gravidade do ato — começa a colocar a criança contra o outro, criando uma narrativa negativa sobre ele. Esse movimento silencioso, que parece apenas uma opinião ou um desabafo diante do filho, pode se transformar numa verdadeira campanha de desqualificação, que corrói pouco a pouco a confiança e o afeto da criança pelo outro genitor.
Do ponto de vista psicanalítico, as consequências desse processo são profundas. O vínculo com pai e mãe não é apenas uma questão prática ou legal: é a base sobre a qual se ergue a subjetividade da criança. É na relação com ambos que ela vai aprendendo a reconhecer a diferença, a lidar com os limites, com a autoridade e com a falta. São essas referências, mesmo que imperfeitas, que permitem que um sujeito se constitua, que encontre um lugar no mundo e em si mesmo.
Quando um dos genitores passa a ser apresentado como indigno de amor, a criança entra em um terreno paradoxal. Dentro dela, dois sentimentos se chocam: o amor espontâneo e genuíno que sente pelo pai ou pela mãe, e a rejeição que passa a ser exigida para permanecer leal ao outro lado. A criança se vê dividida, confusa, carregando um peso que não é dela. Muitas vezes, não entende o que está acontecendo e acaba sentindo culpa por querer amar quem foi colocado no lugar do “vilão”.
Esse tipo de dinâmica não só afasta um dos pais como também provoca feridas invisíveis. As emoções que ficam silenciadas — a raiva, a tristeza, a saudade, a sensação de abandono — podem se transformar em sintomas: dificuldades de aprendizado, ansiedade, comportamentos agressivos, isolamento. Com o tempo, podem ainda se repetir em novas relações: o modo como a criança aprendeu a lidar (ou não lidar) com o amor e com o conflito pode marcar suas escolhas futuras, e a história tende a se repetir de geração em geração.
A psicanálise, nesse contexto, oferece um lugar de acolhimento e escuta. Quando uma criança, um adolescente ou mesmo um adulto que viveu situações de alienação parental encontra esse espaço, pode, pouco a pouco, dar palavras a uma dor que parecia sem nome. Esse trabalho ajuda a reorganizar o que foi rompido, a compreender que o amor pelos pais não deveria ser uma questão de escolha, e a encontrar formas de reinventar o vínculo, ainda que diferente daquele idealizado.
Falar sobre alienação parental é falar sobre a necessidade de proteger algo muito precioso: a possibilidade de uma criança amar seus pais sem medo de trair ninguém. Essa liberdade é um dos maiores legados que um adulto pode deixar a um filho.