Impotência
- Margarida Viñas
- Jul 10, 2025
- 2 min read

Quando o corpo não responde: a impotência e o sujeito dividido
A impotência sexual costuma ser tratada, na cultura contemporânea, como uma questão essencialmente orgânica ou de desempenho. Há sempre um suplemento de técnica, medicação ou controle que se oferece como solução. Enfim, uma saída fácil que o mercado oferece como solução. No entanto, muitos homens que enfrentam dificuldades de ereção se deparam com algo que escapa a esse tipo de resposta: mesmo com exames normais, boa saúde física e desejo aparente, o corpo não responde.
Na psicanálise, a impotência não é apenas um problema do corpo, mas um sintoma que fala do inconsciente. Ela pode ser o modo como o sujeito expressa — sem saber — um conflito mais profundo com o desejo, com o lugar que ocupa nas relações, com a forma como se vê como homem. Em outras palavras, o corpo "trava" quando o sujeito está em uma situação que toca algo sensível de sua história.
É comum, por exemplo, que a impotência apareça em momentos decisivos de uma relação amorosa, quando a fantasia de controle ou idealização do outro e de si mesmo se desfaz. Também pode surgir quando há uma exigência inconsciente de "estar à altura" de um papel — de provedor, de amante, de homem viril — que o sujeito vive como excessivo ou estranho a si mesmo. Freud já notava, no início da psicanálise, que muitos homens dividem, sem perceber, o amor e o desejo: são capazes de desejar intensamente, mas apenas fora dos laços afetivos mais profundos; ou, ao contrário, mantêm vínculos ternos, mas perdem o desejo sexual nesses contextos.
A impotência, então, pode ser uma forma de defesa. Um limite imposto pelo inconsciente frente a uma cena que, de algum modo, toca o sujeito em sua intimidade, sua infância, suas identificações — tudo aquilo que ele talvez nunca tenha formulado com palavras, mas que permanece atuando silenciosamente.
O trabalho psicanalítico não busca "corrigir" a impotência como se ela fosse uma falha. Em vez disso, ele se propõe a escutar o sintoma, a decifrá-lo, a desvendar o que há por trás daquele corpo que não obedece. É por essa via que algo pode se transformar: não por força ou repetição, mas por elaboração.
O que está em jogo, no fundo, não é apenas o sexo ou o desempenho, mas a possibilidade de desejar, de habitar o próprio corpo sem medo, sem máscaras, e de construir uma relação diferente consigo mesmo e com o outro.



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